O Brasil tem 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que estão fora da escola e não concluíram a educação básica. O número corresponde a 37,3% da população nessa faixa etária, segundo levantamento da Rede EJA e Inclusão Produtiva, elaborado com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Do total, 44,7 milhões de brasileiros não concluíram o ensino fundamental, enquanto 19,3 milhões interromperam os estudos antes de terminar o ensino médio. Os dados evidenciam um dos principais desafios educacionais do país: garantir oportunidades de escolarização para jovens, adultos e idosos que deixaram a escola sem completar a formação básica.
O estudo foi divulgado pela Rede EJA e Inclusão Produtiva, iniciativa que reúne organizações da sociedade civil, fundações e organismos internacionais para ampliar o acesso à educação e fortalecer políticas de inclusão produtiva.
EJA atende pequena parcela da população
Apesar do elevado número de pessoas que poderiam retomar os estudos, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) atende apenas 1,5% da demanda potencial identificada pelo levantamento.
A modalidade é destinada a pessoas que não concluíram o ensino fundamental ou médio na idade considerada regular. Entretanto, a oferta insuficiente de vagas e as dificuldades para conciliar estudo, trabalho e responsabilidades familiares representam obstáculos para o retorno às salas de aula.
Entre 2012 e 2025, o contingente de pessoas com educação básica incompleta e fora da escola diminuiu 16%. A redução, porém, não significa necessariamente que mais brasileiros tenham concluído os estudos. Segundo a pesquisa, apenas 8% dessa queda pode ser atribuída à atuação da EJA, enquanto mais da metade está relacionada à mortalidade da população que compõe esse grupo.
Desigualdade racial e econômica
O levantamento também identifica desigualdades sociais entre as pessoas que não concluíram a educação básica. Pessoas pretas e pardas representam 63,9% desse público, enquanto as mulheres correspondem a 49,2%.
A renda domiciliar mensal per capita média desse grupo é de R$ 1.427, valor equivalente a aproximadamente 51,4% dos R$ 2.777 registrados entre as pessoas que concluíram a educação básica.
A pesquisa aponta ainda que a taxa de pobreza entre aqueles que não completaram essa etapa de ensino é 1,8 vez maior do que entre os que concluíram os estudos.
Os resultados demonstram a associação entre escolaridade, renda e oportunidades de inserção profissional. A conclusão da educação básica pode ampliar as possibilidades de acesso ao emprego formal e melhorar as perspectivas de rendimento dos trabalhadores.
Trabalho e responsabilidades familiares dificultam retorno
Os motivos que afastam os brasileiros da escola variam conforme as condições de vida. De acordo com os pesquisadores, o trabalho aparece como um dos principais obstáculos para os homens, tanto para a interrupção dos estudos quanto para o retorno à educação.
Entre as mulheres, as responsabilidades relacionadas aos filhos, aos cuidados familiares e às tarefas domésticas têm papel importante na dificuldade de retomar a formação escolar.
Por isso, o relatório defende que a ampliação das matrículas seja acompanhada de medidas que facilitem a permanência dos estudantes, como horários flexíveis, oferta de creches, currículos adequados à realidade dos adultos e integração entre educação, trabalho e políticas sociais.
Impacto na economia brasileira
A baixa escolaridade também representa um desafio econômico. Segundo uma simulação apresentada no estudo, a conclusão da educação básica por parte de 32,5 milhões de pessoas poderia elevar os rendimentos do trabalho no país em cerca de R$ 66 bilhões por ano.
A estimativa reforça a importância de políticas que permitam aos brasileiros retomar e concluir os estudos, com benefícios potenciais tanto para os trabalhadores quanto para a economia nacional.
O relatório recomenda ações de busca ativa para localizar pessoas que abandonaram a escola, ampliação da oferta de EJA, prioridade para regiões com maiores déficits educacionais e financiamento contínuo das políticas de escolarização.
O diagnóstico evidencia que reduzir o número de brasileiros sem educação básica completa exige mais do que ampliar o acesso inicial à escola. Também é necessário criar condições para que jovens e adultos retornem às salas de aula, conciliem os estudos com suas responsabilidades e concluam a formação.
